Viver é um exercício rotineiro. Chega a ser cansativo. Mas, a maioria das pessoas não desistem de viver. As que o fazem, são as mais sãs, os loucos; insistem nessa odisséia desvairada que é a vida. Entretanto, a própria vida se diverte observando mínimos instantes de prazer e sucesso . E ri descontroladamente da ínfima alegria , pois sabe o quanto é passageiro aquele instante de felicidade. Viver é mais que nascer, muito mais. Quando nascemos estamos numa contagem progressiva para o fim, diária, morrer é a única certeza que a vida nos oferece ao nascermos. Nascer dói. Viver dói. Inquieta vida. Movimenta-se antes da existência, inquieta-se e incomoda , salta aos olhos, manifesta-se antes de ver a luz.
Aquela era assim, viva. Cresceu sob a tutela do zelo familiar. Teve deles a educação necessária para molda-lhe o gênio e impetuosidade. Quinze anos. Necessários quinze anos para reivindicar a sua vida independente. Partiu dali como quem não mais voltaria. Ele foi o motivo. Sentiu algo diferente dentro de si, como não sabia o que era, chamou de amor. Amor. Como saberia definir aquele estranho sentimento que mexia dentro de si, inquietava. Ele, não sei se sabia. Era sempre assim, manipulador, arrogante. Dezenove anos de mundo, não tinha eira nem beira. A rua , seu único destino. Filho do mundo, da cor do mundo. Moreno mundo, mediano mundo, talvez pequeno. Sorriso de piano, olhos de gelo e fogo, queima e paralisa. Uma voz suave desconcertava toda má educação.
Opostos. Extremo oposto. Tudo era destoante. Juntos não seriam jamais um. Mas foram. Teimosamente foram ser um. Não cabia ali, naquele momento questionar o desejo, problematizar o depois. Por quê? Eu vi que a vida ria. Havia ali alegria quase inocente. Porque ser alegre é não ser inocente. Mas ali era. Eles eram, pois acreditavam que o mundo era ser dois em um. Apenas não sabiam o que ela iria lhes dizer um dia, que a unificação é superior ao carnal, é de idéias, é espiritual. Ela, Ela sempre programa tudo e ri, desvairadamente, quando percebe que há erros, pois sabe que em seguida há sofrimento.
Um dia, ao rebentar da aurora, olhando para ele perguntou o que fariam, pois havia fome, sede, sono, havia falta de tudo. A resposta foi rápida e apontando-lhe o mundo mostrou-lhe a saída. Liberdade custa caro.
Sem demora aquela foi. E contemplou o tudo pelo nada que tinha, e viu o mundo. Não era dois, agora era um, ou melhor, uma. Sozinha e sem nada. Tudo que tinha era nada, pois aquela mesma era nada. Nada do que sonhou, do que pensou, do que sentiu ao sair. Ficou um instante percebendo como nada é tudo. Do nada somos formados e todas as coisas também. Foi daí que ela percebeu que o nada que era nela. Eram também as outras coisas. De ninguém. Era.
E resolveu procurar acolhimento. Procurar abrigo. Encontrou depois de muito procurar. Achou quem lhe desse o do dia sem a noite pelo suor do corpo todo. Ficou. Nesse momento eu vi que ela não mais ria, apenas via e observava tudo , séria. Sei que percebia como a outra se virava com ela. Fazia agora, aquela, a vida e, não a vida fazia ela.
Não pensava em nada. Não via ninguém. Apenas sentia como deveria sentir a vida que lhe dava; fome, dor, angustia, ansiedade, cansaço, saudade e por um instante pensou em chorar e viu uma lágrima fugir de dentro. Eu via. Ela não ria mais. Como eu, observava.
II
Sofrer é o preço dela. Ele não queria saber. Vivia. E se ria sem saber que ela via. Ele nem se importava com nada. Bebia. Comia. Dançava. Ia à praia. Espiava que tudo existia ao seu redor. Havia muitas mulheres. Todas riam. Às vezes ele me procurava e não sabia que o fazia. Eu sempre perto. Às vezes eu sabia que ele me via e não temia. Preferia as outras. Deitavam-se e riam. Num gozo sem gosto explodiam e um por um instante faziam da vida sua aliada incondicional. Todos riam. Eles e ela que me via na socapa, a soslaio. Sempre fui paciente. Me acusam irresponsavelmente de fria. Enganam-se. Todos e tudo estão enganados.
Era noite e ela voltava, exausta não via que ele não se importava. Não a via e não sentia a falta. O dia inteiro e aquela exausta. Ele não era um. Só dois. Aos poucos percebia que tudo estava sendo do jeito que não sabia. Mas, sentia dor, raiva, ciúme, sofrer é viver. Lutava por isso e sabia que um dia conseguiria seus sonhos. Mesmo sem saber o que eles eram , não mais nomeava os sonhos porque agora só queria que eles fossem da cor de uma casa com sala e quarto amplos e limpos, um banheiro. Não tinha. Estavam sendo dois nos fundos de um sobrado velho com ratos. Como dormiriam naquele chão? Papelão. Ainda há um telhado, parede, pão e água pra quem tem fome e sede. Eram dois. Por algum tempo...
De repente... Um. Aquela sentia que era um, ela via que era um agora, são. Por um momento via estrelas e respirou nuvens. Subiu nas ondas. Pisou o infinito. Um. Apenas. Eu vi que ela via. E, depois de tudo, ela ria e como ria. Naquele riso dizia pra mim o quanto ela era cruel e pior, ninguém sabia. Eu via. Ninguém sabia. Naquele riso ela me dizia como ela agia, mostrava que todo o dia daquela valeu a pena. Era compensação da dor. No outro dia, aquela iria fazer tudo de novo. Verter sangue transparente em gotas para ter de novo o momento de pisar o poder. O poder de ser um no outro. O momento exato de pode ser no outro. Por isso, ria desconcertadamente que doía. O grito da gargalhada debochada dela que naquele som dizia o que era. Como agia. De nada adianta ser alguém com nome e endereço grande. Ela só muda a estratégia, mas para todos é uma só. Mal. Cruel. Oferece tudo a todos. Proporciona e espia. Todos vão em busca de conquista-la. Lutam, brigam, defende-a com todo força. Depois... Depois ela toma. Devora, Mutila sem piedade. Arranca o riso, o brilho dos dentes, o foco dos olhos. Só ela consegue te levar ao desespero, a agonia da paixão. Aos momentos torturantes para existir. Só ela prende na cama, pela dor ou por amor. Não tem piedade. Não conhece ninguém. Sabe que é única em todos e para todos. A vaidade é maior que ela e cada vez que ser onipresente. Está em tudo e todos clamam e comemoram ela. Tolos. Ela sempre zomba de todos. Tolos.
III
Aquela que não era mais um, ao raiar do dia, saía. Havia falta de tudo de novo. Ele dormia. Não via a falta. Não via nem a falta dele, que não era. Nem existia. Não tinha nome, não sabia de onde vinha e porque vinha. Então, ficava ali esperando o outro, a outra, as coisas que faziam ele sentir. Quando tinha raiva de esperar, brigava , xingava, batia naquela. Realmente eram dois distantes e distintos. Tudo. Não falavam a mesma palavra. Nem isso tinha. Contudo, aquela cansou de ser um para os dois e achou que se fosse mais outro mudaria tudo. Ela sabia que era procriar miséria. Fiar infortúnio no mundo. Mas, espiava, somente. Tive receio, esperei. Sem saber, sem ter o que ser foi buscando ser outro. Pensou que poderia mudar ele, talvez ele pudesse ficar sendo um para ver o outro crescer com ela. Nessa idéia tresloucada, desespero. A falta de informação e razão se fez presente naquela que sentia o medo de ser dois. Querendo ser um criou o terceiro. Feliz. Pensou que ela a contemplaria, via que ela estava em toda parte a toda sorte. Encantava-se por perceber que ela era a única coisa que existia nela. Sonhava em vê-la crescer e incomodar antes de ver a luz.
Foi quando eu vi que ele enlouquecia, odiava, chorava, urrando de dor e desespero não queria ser outro. Isso foi o começo. Dia após dia, dizia que não seria no outro. Aquela chorava e sofria enquanto ela se ria sem parar. Não dava mais. Cansei de espiar, peguei aquela pela mão, mostrei-me sem cor, sem roupa, apresentei-lhe o sossego, a calma e foi eterno. Aquela não foi mais um, nem dois e nem o outro... Tirei-lhe ela e dei-lhe o sono. Agora aquela é um. Para sempre. Sem riso. Sem dor. Sem pranto. Libertei. Agora tudo.
domingo, 30 de agosto de 2009
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Ual... Esplêndido!
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